Negócios: RH · Aula N.rh.4

A vaga que atrai (e não afasta) o candidato certo

Como usar a IA para escrever e testar a descrição de vaga certa, sem o requisito inflado e o jargão que afastam exatamente quem você mais queria atrair.

Exemplos para

Você escreve o convite pro evento de lançamento copiando a lista de "quem não pode faltar" que o diretor mandou, cheia de sigla interna e frase de efeito. A IA deixa o texto bonito em minutos. Só que quem recebe o convite não entende metade das siglas e acha que o evento não é pra ele, e justamente a pessoa que mais precisava estar lá não confirma presença. A pergunta que importa não é "quão empolgante ficou o texto": é "quem, lendo isso, vai sentir que é pra ele, e quem vai sentir que não é bem-vindo".

Putz, deixa eu te contar uma coisa que dói ver acontecer toda semana. Alguém abre uma vaga de "analista pleno", cola a lista de desejo que o gestor mandou por cima do ombro, pede pra IA deixar o texto bonito, publica, e duas semanas depois reclama que "não tem gente boa no mercado". Só que tinha. Ela só nunca chegou a aplicar, porque a vaga, sem querer, mandou um recado de "isso aqui não é pra você" pra exatamente a pessoa que mais interessava atrair.

A ideia central desta aula. A IA acelera demais a parte de redigir e testar variações de linguagem da vaga, isso ela faz em minutos. Mas duas decisões continuam sendo suas, e são elas que decidem se a vaga atrai ou afasta: qual é o requisito MÍNIMO de verdade pra fazer o trabalho (não a lista de desejo inteira do gestor), e se a linguagem carrega jargão ou termo etarista escondido que exclui sem necessidade nenhuma.

01Os dois erros clássicos que afastam o candidato certo

Vamos chamar o boi pelo nome. Existem dois erros que se repetem em quase toda vaga malfeita, e os dois têm o mesmo efeito: afastam desproporcionalmente quem mais interessava atrair.

O primeiro é o requisito inflado. Um estudo da HP, citado por Sheryl Sandberg no livro Lean In, mostrou algo que qualquer recrutador experiente já sentia na pele: mulheres tendem a só se candidatar quando atendem perto de 100% dos requisitos listados, enquanto homens se candidatam com cerca de 60%. Isso não é sobre competência, é sobre como cada grupo lê uma lista de exigências. Quando você cola sete requisitos na vaga e só três ou quatro são realmente indispensáveis, você não está filtrando melhor: está afastando, na prática, quem mais se autocobra antes de aplicar.

O segundo é o jargão e o termo excludente. "Rockstar", "ninja", "guerreiro" soam divertidos pra quem escreve e soam de cultura de trabalho exaustiva pra muita gente boa que já passou por isso. "Perfil jovem e dinâmico", "nativo digital" soam inofensivos e são, na prática, recado de idade, o tipo de frase que afasta um profissional de quarenta e cinco anos com quinze anos de bagagem que seria exatamente quem você precisa.

A mesma vaga, dois jeitos de escrever, dois funis muito diferentes:

LISTA DE DESEJO (7 itens) 7 anos + 4 linguagens "jovem e dinâmico" "ninja de dados" funil estreito REQUISITO MÍNIMO REAL SQL + 1 linguagem raciocínio analítico funil mais largo, candidato certo dentro

A boa notícia é que os dois erros são fáceis de corrigir, uma vez que você para pra olhar pra eles. É exatamente aí que a IA entra.

02A IA como geradora de variações e testadora de linguagem

Aqui a IA acelera de verdade. Em vez de escrever uma vaga e publicar na sorte, você pede pra ela gerar duas ou três versões de tom pro mesmo cargo: uma mais institucional, uma mais direta, uma mais próxima do jeito que o time realmente fala. Você compara e escolhe a que melhor representa a vaga real, não a que soa mais "vendedora".

Peça também pra ela agir como leitora crítica da própria linguagem: "revise este texto e aponte qualquer termo que possa soar etarista, de gênero ou de cultura excludente, e sugira alternativa neutra". Isso pega o "jovem e dinâmico" antes de ele sair, e troca "ninja" por "pessoa com experiência em", sem perder a energia do texto.

E adapte pro canal. O texto que funciona no LinkedIn, mais institucional, não é o mesmo que funciona numa indicação interna, mais direto, nem o mesmo que entra na plataforma de recrutamento tipo Gupy, que pede objetividade. A IA monta as três versões rápido; ela só faz isso bem se você já souber o que quer testar.

03O que continua seu: requisito mínimo real, não lista de desejo

Aqui está a parte que a IA não resolve sozinha, porque ela não conhece a sua operação. A lista que o gestor manda quase sempre é uma lista de desejo, o currículo do candidato dos sonhos, não o requisito mínimo pra fazer o trabalho bem no dia a dia. Separar as duas coisas é julgamento seu.

A pergunta certa pra cada item da lista é simples: "sem isso, a pessoa realmente não consegue fazer o trabalho, ou isso é só bônus bem-vindo?". Sete anos de experiência pode ser bônus quando três anos sólidos já entregam o essencial. Domínio de quatro linguagens pode ser bônus quando o dia a dia real usa só duas. Cortar a lista até o mínimo de verdade não é baixar a régua, é parar de espantar quem se autocobra demais pra aplicar numa lista que nem o time atual cumpre inteira.

04A auditoria rápida antes de publicar

Antes de a vaga sair, rode um checklist curto, ele leva menos de cinco minutos:

05O quadro final

Fecha simples. A IA escreve rápido e testa variação de tom, gênero e canal num instante, isso é ganho de tempo puro. Mas decidir o que é mínimo de verdade pra fazer o trabalho, e auditar se a linguagem não está mandando o candidato certo pra longe antes mesmo de ele ler a segunda linha, isso continua sendo seu. A vaga que atrai não é a mais bonita. É a que fala a língua de quem você quer do outro lado, e só pede o que de fato importa.

Faça agora

Faça você

Pegue a sua tarefa real, uma vaga real que você tem aberta ou a próxima que vai abrir.

  1. Liste os requisitos exatamente como o gestor mandou, sem editar nada ainda.
  2. Para cada item, pergunte: "sem isso a pessoa não consegue fazer o trabalho, ou é bônus?". Risque tudo que for bônus disfarçado de exigência.
  3. Peça pra IA reescrever a vaga em dois tons diferentes (um mais institucional, um mais direto), já com a lista cortada.
  4. Rode o checklist de linguagem nas duas versões: termo etarista, jargão excludente, requisito mínimo, tom certo pro público certo.
  5. Escolha a versão que passou no checklist e publique.

Compare, se puder, com o desempenho da última vaga parecida que você abriu do jeito antigo. A diferença no funil é o argumento que convence o próximo gestor a cortar a lista de desejo antes de publicar.

Pratique

1. Por que o requisito inflado numa vaga afasta desproporcionalmente candidatas mulheres, segundo o estudo citado nesta aula?

2. Na coreografia de escrever a vaga certa, qual tarefa a IA acelera bem, e qual continua sendo sua?

3. Uma vaga traz a frase 'buscamos um verdadeiro ninja de dados, perfil jovem e dinâmico'. O que essa frase faz, na prática?

Para o quadro

Sobre o candidato que não veiotinha gente boa. Ela só não aplicou, porque a vaga mandou um recado de isso aqui não é para você.
Sobre o requisitolista de desejo disfarçada de requisito não filtra melhor. Ela decide quem sequer chega a aplicar.
Sobre a linguagemninja, jovem e dinâmico excluem sem que ninguém tenha decidido excluir.
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