A vaga que atrai (e não afasta) o candidato certo
Como usar a IA para escrever e testar a descrição de vaga certa, sem o requisito inflado e o jargão que afastam exatamente quem você mais queria atrair.
Você escreve o convite pro evento de lançamento copiando a lista de "quem não pode faltar" que o diretor mandou, cheia de sigla interna e frase de efeito. A IA deixa o texto bonito em minutos. Só que quem recebe o convite não entende metade das siglas e acha que o evento não é pra ele, e justamente a pessoa que mais precisava estar lá não confirma presença. A pergunta que importa não é "quão empolgante ficou o texto": é "quem, lendo isso, vai sentir que é pra ele, e quem vai sentir que não é bem-vindo".
Você pede pra IA escrever o comunicado sobre a nova política de reembolso, copiando o texto jurídico que o financeiro mandou, cheio de termo técnico e exceção em letra miúda. A IA deixa fluente em minutos. Só que o time lê por cima, não entende o prazo real, e continua mandando nota fora do padrão, gerando retrabalho pro financeiro inteiro. O comunicado ficou correto e não comunicou nada, porque falava a língua de quem escreveu, não a língua de quem precisava agir.
Você pede pra IA redigir a cláusula de confidencialidade do contrato de prestador, copiando o modelo padrão da banca, cheio de "doravante" e "outrossim". A IA entrega um texto tecnicamente impecável em segundos. Só que o prestador, uma pessoa física sem advogado, não entende o que está assinando, hesita, e o fechamento do contrato atrasa uma semana por dúvida que uma linguagem mais simples teria evitado. A cláusula protegeu a empresa no papel e afastou justamente a assinatura rápida que ela precisava.
Você pede pra IA escrever o anúncio do produto novo copiando a lista de atributos técnicos que o time de engenharia mandou: throughput, latência, benchmark. A IA entrega um texto correto e chato em minutos. O público que decide comprar não é engenheiro, e ninguém clica, porque o anúncio fala de especificação e não fala do problema que o produto resolve na vida de quem lê. A campanha usou a linguagem de quem construiu, não a de quem compra.
Você abre a vaga de analista de dados pleno copiando a lista de desejo que o gestor mandou: sete anos de experiência, domínio de quatro linguagens de programação, "perfil jovem e dinâmico", "queremos um verdadeiro ninja de dados". A IA rascunha o texto bonito em minutos, com adjetivo animado e call to action empolgado. O problema aparece duas semanas depois: poucas candidaturas, e as poucas que chegaram são de gente que já tem emprego e está só namorando o mercado. A candidata perfeita, que tem quatro dos sete requisitos e seria ótima na função, nem chegou a aplicar, porque a lista parecia pedir um unicórnio, e "jovem e dinâmico" soou como recado de idade que ela não quis testar. A pergunta que separa a vaga que atrai da que afasta não é "quanto pedir": é "o que dessa lista é realmente mínimo pra fazer o trabalho, e o que é jargão e viés disfarçado de exigência".
Você pede pra IA escrever a descrição da nova feature no changelog, copiando o nome técnico interno do projeto e a lista de flags que o time mudou. A IA entrega um texto correto em minutos. O usuário lê e não entende o que ganhou de verdade, então a feature que custou um trimestre de trabalho passa batido, sem gerar nenhum "uau" nem adoção. O changelog documentou o código e não comunicou o benefício.
Você pede pra IA escrever o e-mail de prospecção copiando o discurso interno de vendas, cheio de sigla de produto e métrica que só faz sentido pra quem já é cliente. A IA entrega um texto fluente em segundos. O lead frio lê, não reconhece nenhuma palavra do próprio problema ali, e arquiva sem responder. O e-mail vendeu o produto pra quem já entende o produto, e afastou justamente quem ainda não sabia que tinha aquele problema.
Você pede pra IA escrever o procedimento novo pro time de campo, copiando o texto técnico que veio da matriz, cheio de termo de processo que só faz sentido no escritório. A IA entrega um documento correto e formatado. O time de campo lê por cima, não muda o comportamento, e o procedimento vira letra morta na gaveta. A instrução ficou certa no papel e não chegou em quem executa, porque falava a língua errada pro público errado.
Você pede pra IA escrever o treinamento anual de LGPD copiando o texto legal direto do artigo da lei, cheio de referência cruzada e parágrafo único. A IA entrega um material tecnicamente correto em minutos. O time faz o treinamento no piloto automático, não retém nada, e o próximo incidente de dado pessoal acontece exatamente na área que "passou" no treinamento. O conteúdo estava certo e não ensinou nada, porque falava a língua do advogado, não a de quem manuseia o dado todo dia.
Você pede pra IA escrever a documentação da nova API pros times parceiros, copiando o texto técnico que o próprio time de engenharia usa internamente, cheio de acrônimo e referência a decisão de arquitetura que só faz sentido pra quem já conhece o sistema. A IA entrega um texto correto e denso. O time parceiro lê, não entende como integrar, e abre chamado de suporte pra cada passo, porque a documentação falava a língua de quem construiu a API, não a de quem só precisa usá-la.
Você pede pra IA escrever o texto de erro que aparece quando o pagamento falha, copiando o código de erro técnico que o backend retorna, tipo "erro 402: payment_required_exception". A IA entrega um texto tecnicamente correto. O usuário lê aquilo, não entende o que fazer, e abandona o carrinho justamente no passo final da compra. A mensagem estava certa do ponto de vista do sistema e afastou quem já estava prestes a comprar.
Você pede pra IA escrever o memo de reposicionamento da empresa, copiando o jargão de consultoria que ficou do último workshop: "sinergia", "alavancagem de ativos intangíveis". A IA entrega um texto fluente e cheio de termo bonito. O time que precisa executar a mudança lê e não entende o que muda na prática, então ninguém age diferente segunda de manhã. A estratégia ficou impecável no slide e não chegou no chão de fábrica, porque a linguagem falava pro board e não pra quem executa.
Putz, deixa eu te contar uma coisa que dói ver acontecer toda semana. Alguém abre uma vaga de "analista pleno", cola a lista de desejo que o gestor mandou por cima do ombro, pede pra IA deixar o texto bonito, publica, e duas semanas depois reclama que "não tem gente boa no mercado". Só que tinha. Ela só nunca chegou a aplicar, porque a vaga, sem querer, mandou um recado de "isso aqui não é pra você" pra exatamente a pessoa que mais interessava atrair.
A ideia central desta aula. A IA acelera demais a parte de redigir e testar variações de linguagem da vaga, isso ela faz em minutos. Mas duas decisões continuam sendo suas, e são elas que decidem se a vaga atrai ou afasta: qual é o requisito MÍNIMO de verdade pra fazer o trabalho (não a lista de desejo inteira do gestor), e se a linguagem carrega jargão ou termo etarista escondido que exclui sem necessidade nenhuma.
01Os dois erros clássicos que afastam o candidato certo
Vamos chamar o boi pelo nome. Existem dois erros que se repetem em quase toda vaga malfeita, e os dois têm o mesmo efeito: afastam desproporcionalmente quem mais interessava atrair.
O primeiro é o requisito inflado. Um estudo da HP, citado por Sheryl Sandberg no livro Lean In, mostrou algo que qualquer recrutador experiente já sentia na pele: mulheres tendem a só se candidatar quando atendem perto de 100% dos requisitos listados, enquanto homens se candidatam com cerca de 60%. Isso não é sobre competência, é sobre como cada grupo lê uma lista de exigências. Quando você cola sete requisitos na vaga e só três ou quatro são realmente indispensáveis, você não está filtrando melhor: está afastando, na prática, quem mais se autocobra antes de aplicar.
O segundo é o jargão e o termo excludente. "Rockstar", "ninja", "guerreiro" soam divertidos pra quem escreve e soam de cultura de trabalho exaustiva pra muita gente boa que já passou por isso. "Perfil jovem e dinâmico", "nativo digital" soam inofensivos e são, na prática, recado de idade, o tipo de frase que afasta um profissional de quarenta e cinco anos com quinze anos de bagagem que seria exatamente quem você precisa.
A mesma vaga, dois jeitos de escrever, dois funis muito diferentes:
A boa notícia é que os dois erros são fáceis de corrigir, uma vez que você para pra olhar pra eles. É exatamente aí que a IA entra.
02A IA como geradora de variações e testadora de linguagem
Aqui a IA acelera de verdade. Em vez de escrever uma vaga e publicar na sorte, você pede pra ela gerar duas ou três versões de tom pro mesmo cargo: uma mais institucional, uma mais direta, uma mais próxima do jeito que o time realmente fala. Você compara e escolhe a que melhor representa a vaga real, não a que soa mais "vendedora".
Peça também pra ela agir como leitora crítica da própria linguagem: "revise este texto e aponte qualquer termo que possa soar etarista, de gênero ou de cultura excludente, e sugira alternativa neutra". Isso pega o "jovem e dinâmico" antes de ele sair, e troca "ninja" por "pessoa com experiência em", sem perder a energia do texto.
E adapte pro canal. O texto que funciona no LinkedIn, mais institucional, não é o mesmo que funciona numa indicação interna, mais direto, nem o mesmo que entra na plataforma de recrutamento tipo Gupy, que pede objetividade. A IA monta as três versões rápido; ela só faz isso bem se você já souber o que quer testar.
03O que continua seu: requisito mínimo real, não lista de desejo
Aqui está a parte que a IA não resolve sozinha, porque ela não conhece a sua operação. A lista que o gestor manda quase sempre é uma lista de desejo, o currículo do candidato dos sonhos, não o requisito mínimo pra fazer o trabalho bem no dia a dia. Separar as duas coisas é julgamento seu.
A pergunta certa pra cada item da lista é simples: "sem isso, a pessoa realmente não consegue fazer o trabalho, ou isso é só bônus bem-vindo?". Sete anos de experiência pode ser bônus quando três anos sólidos já entregam o essencial. Domínio de quatro linguagens pode ser bônus quando o dia a dia real usa só duas. Cortar a lista até o mínimo de verdade não é baixar a régua, é parar de espantar quem se autocobra demais pra aplicar numa lista que nem o time atual cumpre inteira.
04A auditoria rápida antes de publicar
Antes de a vaga sair, rode um checklist curto, ele leva menos de cinco minutos:
- Tem termo etarista escondido? "Jovem", "nativo digital", "recém-formado" quando não precisa ser, tudo isso é recado de idade disfarçado de energia.
- Tem jargão de cultura excludente? "Rockstar", "ninja", "trabalhar sob pressão constante" sem contexto soam menos como cargo e mais como aviso de esgotamento.
- O requisito é mínimo ou é lista de desejo? Se você riscasse metade da lista, o time ainda conseguiria contratar alguém que entrega? Se sim, a lista está inflada.
- O tom fala com quem eu quero atrair? Leia em voz alta imaginando a pessoa certa lendo. Ela sentiria que a vaga foi escrita pra ela, ou pra um personagem que não existe no mercado?
05O quadro final
Fecha simples. A IA escreve rápido e testa variação de tom, gênero e canal num instante, isso é ganho de tempo puro. Mas decidir o que é mínimo de verdade pra fazer o trabalho, e auditar se a linguagem não está mandando o candidato certo pra longe antes mesmo de ele ler a segunda linha, isso continua sendo seu. A vaga que atrai não é a mais bonita. É a que fala a língua de quem você quer do outro lado, e só pede o que de fato importa.
Faça agora
Pegue a sua tarefa real, uma vaga real que você tem aberta ou a próxima que vai abrir.
- Liste os requisitos exatamente como o gestor mandou, sem editar nada ainda.
- Para cada item, pergunte: "sem isso a pessoa não consegue fazer o trabalho, ou é bônus?". Risque tudo que for bônus disfarçado de exigência.
- Peça pra IA reescrever a vaga em dois tons diferentes (um mais institucional, um mais direto), já com a lista cortada.
- Rode o checklist de linguagem nas duas versões: termo etarista, jargão excludente, requisito mínimo, tom certo pro público certo.
- Escolha a versão que passou no checklist e publique.
Compare, se puder, com o desempenho da última vaga parecida que você abriu do jeito antigo. A diferença no funil é o argumento que convence o próximo gestor a cortar a lista de desejo antes de publicar.
Pratique
1. Por que o requisito inflado numa vaga afasta desproporcionalmente candidatas mulheres, segundo o estudo citado nesta aula?
2. Na coreografia de escrever a vaga certa, qual tarefa a IA acelera bem, e qual continua sendo sua?
3. Uma vaga traz a frase 'buscamos um verdadeiro ninja de dados, perfil jovem e dinâmico'. O que essa frase faz, na prática?
Para o quadro
Sobre o candidato que não veiotinha gente boa. Ela só não aplicou, porque a vaga mandou um recado de isso aqui não é para você.
Sobre o requisitolista de desejo disfarçada de requisito não filtra melhor. Ela decide quem sequer chega a aplicar.
Sobre a linguagemninja, jovem e dinâmico excluem sem que ninguém tenha decidido excluir.
Valeu pelo feedback. Isso ajuda a afiar a próxima aula.