Negócios: Produtos · Aula N.prod.4

O PRD que vira produto, não que vira gaveta

Um PRD solto vira interpretação. Um PRD com critério de aceite testável vira produto, porque um agente de IA consegue executar em cima dele e você consegue conferir o resultado. A diferença mora no critério, e o critério continua seu.

Exemplos para

Você escreve um PRD de três páginas descrevendo a feature nova, entrega pro time e parte pra próxima coisa. Duas semanas depois o dev entrega algo que tecnicamente cumpre o que está escrito, e não resolve o problema que você tinha em mente. O PRD não estava errado no português. Estava errado no critério: nunca dizia, de um jeito que dá pra testar, o que "pronto" significa.

Deixa eu te falar uma coisa sobre PRD. Todo mundo já escreveu um PRD que parecia completo: contexto, objetivo, escopo, uma lista de "requisitos". E ainda assim virou retrabalho, porque duas semanas depois ninguém concordava se o que foi entregue estava certo ou não. Pensa comigo: o problema quase nunca é a redação. É que o documento nunca disse, de um jeito que dá pra testar, o que "pronto" quer dizer.

A ideia central desta aula. Um PRD vira produto quando carrega critério de aceite testável: uma frase que qualquer pessoa, ou qualquer agente de IA, consegue verificar como verdadeira ou falsa depois de implementado. A IA rascunha a estrutura do PRD e sugere critérios candidatos rápido. O que continua seu, e é o que decide se o PRD funciona, é garantir que o critério capture a intenção real, não só uma versão fácil de testar que não resolve o problema de verdade.

01Por que o PRD solto vira gaveta ou retrabalho

Um PRD sem critério verificável tem uma característica traiçoeira: ele PARECE completo. Tem contexto, tem objetivo, tem uma lista de "o que fazer". O que falta é a régua que diz quando parar de mexer e chamar de pronto. Sem essa régua, cada pessoa que lê o documento, um dev, um designer, um agente de IA, preenche a lacuna com a própria interpretação.

O resultado clássico: a feature "tecnicamente" cumpre o PRD e não resolve o problema. Ninguém mentiu, ninguém foi preguiçoso. O documento simplesmente nunca definiu o que "certo" significava de um jeito que desse pra checar.

02A anatomia do PRD executável: problema, critério, fora de escopo

Um PRD que vira produto tem três partes que fazem o trabalho pesado:

Problema com evidência real do feedback Critério de aceite testável verdadeiro ou falso Fora de escopo o que não entra nesta rodada o critério do meio é o que faz o resto do documento virar ação, não redação

03A IA rascunha rápido, o critério certo continua seu

Aqui a IA ajuda muito, e vale usar sem culpa. Você entrega o insight da coreografia de feedback (a evidência do problema), e pede o rascunho do PRD inteiro: contexto, objetivo, uma primeira lista de critérios de aceite candidatos. Ela monta isso em minutos, no formato certo, com boa redação.

O que ela não faz sozinha é garantir que o critério capture a intenção de verdade. É fácil a IA sugerir um critério fácil de testar e fácil de programar que não é o que resolve o problema do usuário. Exemplo clássico: o critério "o botão de exportar deve aparecer na tela" é testável e não resolve nada se o problema real era "o usuário não sabe que a exportação existe". Você lê cada critério candidato e pergunta: se isso for verdade, o problema do passo um está resolvido de verdade? Se a resposta for não, o critério está errado, mesmo sendo perfeitamente testável.

Saiba mais: critério testável não é sinônimo de critério certo

Existe uma armadilha sutil aqui. "Testável" é uma qualidade de forma: dá pra verificar se é verdadeiro ou falso. "Certo" é uma qualidade de conteúdo: o critério realmente captura o que resolve o problema do usuário. A IA é ótima garantindo a forma, porque forma é estrutura, e estrutura ela redige bem. Garantir o conteúdo, que aquele critério específico é a coisa certa a medir, exige que você tenha lido o insight de origem e saiba, de verdade, o que o usuário estava tentando fazer. Um PRD cheio de critérios testáveis e errados é pior que um PRD vago, porque ele passa a falsa sensação de rigor.

04Do critério ao agente: ler, fazer, mostrar pra você conferir

Um critério de aceite bem escrito é o que permite que um agente de IA execute a implementação com segurança, do jeito que você viu na aula 1.1: ele lê o PRD e o critério, faz a mudança no seu código ou no seu sistema, e mostra pra você conferir se o critério agora é verdadeiro. Sem critério claro, o agente não tem como saber quando parar, e você não tem como aprovar com confiança, só com a sensação de "parece que ficou bom".

Um critério bem escrito vira, quase de graça, o roteiro de teste que confirma a entrega. É o mesmo princípio de qualquer coreografia deste curso: quanto mais claro o critério na entrada, mais fácil e mais segura fica a conferência na saída.

05O que nunca se automatiza: a intenção por trás do critério

A regra final desta aula, e ela é curta. A IA pode escrever o PRD inteiro, sugerir todos os critérios, até simular se a implementação parece atender cada um. O que ela não pode fazer sozinha é decidir se aquele conjunto de critérios, tomado como um todo, resolve o problema que o usuário de verdade tem. Essa leitura de intenção é sua, vem da evidência que você reuniu, e é o motivo de você ainda ser necessário quando a redação virou barata.

Faça agora

Faça você

Pegue uma feature ou correção real que você precisa especificar, a sua tarefa real ou outra. Escreva o PRD em três partes:

  1. Problema com evidência. Uma frase com o dado real por trás (número de tickets, citação de usuário, métrica que caiu).
  2. Critério de aceite testável. Escreva no formato "dado isso, quando isso acontece, então isso deve ser verdade". Se não conseguir escrever no formato testável, o critério ainda está vago.
  3. Fora de escopo. Liste duas ou três coisas que alguém poderia assumir que estão incluídas, e que você está deixando de fora nesta rodada, por escrito.

Agora releia o critério de aceite e pergunte: se isso for verdade, o problema do passo um está mesmo resolvido? Se a resposta for não, reescreva o critério antes de mandar pro time ou pro agente.

Pratique

1. Por que um PRD pode parecer completo e ainda assim virar retrabalho?

2. A IA sugeriu, para o problema 'o usuário não sabe que a exportação existe', o critério 'o botão de exportar deve aparecer na tela'. Esse critério é testável. Ele é certo?

Para o quadro

Sobre o que falta no PRDo problema quase nunca é a redação. É nunca ter dito, de um jeito testável, o que pronto quer dizer.
Sobre a lacunasem critério verificável, cada pessoa e cada agente preenche com a própria interpretação.
Sobre o limitea IA rascunha rápido. Conferir se o critério captura a intenção real continua sendo humano.
O que você achou desta página?
Recomendaria esta página para alguém do seu time?